A doença de Peyronie é caracterizada por alterações fibróticas na túnica albugínea dos corpos cavernosos. Essas alterações podem comprometer a extensibilidade dos tecidos durante a ereção, produzindo curvatura, deformidades, redução do comprimento e, em alguns casos, disfunção erétil.

Embora a curvatura seja sua manifestação mais conhecida, a doença pode produzir consequências funcionais e emocionais que ultrapassam a alteração anatômica. Por isso, a escolha do tratamento deve considerar a função sexual e as necessidades individuais.

A fase da doença influencia o tratamento?

Sim. Na fase ativa, podem ocorrer dor durante as ereções e mudanças progressivas da deformidade. Na fase estável, a dor frequentemente diminui e a deformidade deixa de apresentar alterações significativas. Essa estabilidade é particularmente relevante para o planejamento cirúrgico.

A duração da doença, isoladamente, não determina sua estabilidade: a evolução da deformidade e os sintomas também precisam ser avaliados.

Todos os pacientes precisam de tratamento?

Não. Curvaturas discretas, com ereções preservadas e sem dificuldades sexuais relevantes, podem permitir acompanhamento. Em outros casos, a deformidade dificulta a penetração, reduz a confiança sexual ou se associa à piora da função erétil. A indicação deve considerar o impacto real da doença, e não apenas o ângulo de curvatura.

Quais são as possibilidades de tratamento clínico?

Controle da dor e acompanhamento

Na fase ativa, a dor pode ser tratada com medidas sintomáticas, incluindo anti-inflamatórios quando indicados. O controle da dor, entretanto, não significa necessariamente regressão da placa ou correção da curvatura.

Dispositivos de tração peniana

Os extensores aplicam tração controlada aos tecidos. Em pacientes selecionados, podem contribuir para amenizar a curvatura e preservar parte do comprimento. O resultado depende do dispositivo, do protocolo e da adesão e do momento da doença, que pode ser dificultada pela necessidade de uso regular.

Tratamentos intralesionais

Algumas substâncias podem ser aplicadas na região de fibrose – placa, em situações selecionadas. A disponibilidade, a indicação e a eficácia apresentam restrições, não sendo indicado em placas maduras, bem estabelecidas, ou em casos que apresentem deformidades da haste. As aplicações são obrigatoriamente acompanhadas de exercícios de extensão da placa e podem amenizar a curvatura em alguns casos.

Ondas de choque

As ondas de choque podem ter papel no alívio da dor em determinados pacientes, mas não demonstraram benefício consistente para corrigir a curvatura. As evidências apontam também para beneficio quanto a disfunção erétil, e por isso, é uma estrategia possível e interessante para o cenário de Doença de Peyronie, porém, com atenção ao fato de que a correção da curvatura não é esperada com a utilização do método.

Quando considerar a cirurgia?

A cirurgia pode ser considerada quando a doença estiver estável e a deformidade compromete a atividade sexual ou produz repercussão significativa. O planejamento deve avaliar direção e intensidade da curvatura, deformidades associadas, comprimento e função erétil.

Corporoplastias de encurtamento: correção pelo lado oposto

A curvatura ocorre porque no momento da ereção, uma região do tecido elástico apresenta menor capacidade de extensão. As técnicas de encurtamento ou corporoplastia redutora atuam no lado oposto à curvatura, reduzindo proporcionalmente sua extensibilidade para equilibrar os dois lados.

Podem oferecer correção eficaz em pacientes selecionados, especialmente quando a ereção está preservada. A possibilidade de redução do comprimento peniano deve ser discutida antes da cirurgia.

Corporoplastias com enxerto: reconstrução do lado acometido

Outra possibilidade é atuar sobre a região de menor extensibilidade. As técnicas de incisão e enxerto procuram permitir expansão mais equilibrada dos corpos cavernosos durante a ereção. O enxerto preenche a área de abertura criada na túnica albugínea.

Diferentes materiais biológicos podem ser utilizados conforme a reconstrução. Em situações selecionadas, pode ser necessária a remoção parcial de tecido fibrótico ou calcificado. O objetivo é corrigir a deformidade preservando o comprimento quando possível, considerando os riscos de alteração da função erétil, sensibilidade e cicatrização.

E quando existe disfunção erétil associada?

A função erétil é decisiva na escolha do tratamento. Pacientes com curvatura e ereções satisfatórias podem receber estratégias distintas daqueles com deformidade e disfunção erétil significativa. Quando a ereção não responde adequadamente às terapias disponíveis, o implante de prótese peniana pode ser considerado; eventualmente, são necessárias manobras adicionais para corrigir a curvatura, concomitante a colocação da prótese.

A recuperação do comprimento é possível?

A redução do comprimento pode decorrer da própria fibrose. Algumas estratégias procuram preservar dimensões e reduzir deformidades, mas não é possível garantir recuperação integral do comprimento anterior à doença. Essa expectativa deve ser discutida desde o planejamento.

A saúde emocional também deve ser considerada?

Sim. Constrangimento, ansiedade, perda de confiança e dificuldades no relacionamento podem ocorrer independentemente do grau de curvatura. O acompanhamento psicológico ou sexológico pode complementar o tratamento em situações selecionadas.

Qual é o melhor tratamento?

O tratamento da doença de peyronie é extremamente individualizado. O melhor tratamento para o seu caso é escolhido a luz de inúmeros fatores, e tem alicerce em critérios não objetivos, podendo assim, variar de pessoa para pessoa em casos tecnicamente similares.

O objetivo não é apenas corrigir uma curvatura, mas preservar ou recuperar a função sexual e o bem-estar do indivíduo.

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